Homenagem: mega artigo sobre o Mundial de 1959

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Publicado em: 30/01/2009

Contexto histórico

O Mundial de 1959 começou em 59 porque houve atrasos nas obras que prepararam o Chile para a competição. O certo seria em 1958, ano em que o PC Soviético elevou o já líder Nikita Krushchev ao cargo de primeiro ministro da URSS. No mesmo ano, o jovem Pelé conduzia o Brasil de azul ao primeiro título mundial de futebol, Fidel e Che se organizavam na Sierra Maestra e João Gilberto gravava Chega de Saudade.

De certa maneira, os importantes acontecimentos do ano comporiam o cenário para o janeiro de 1959, mês que conduziria a bola laranja brasileira ao seu primeiro título mundial (ainda viriam mais dois, um masculino e outro feminino).

Se é verdade que a elevação do cargo de Krushchev ou a iminência da Revolução Cubana não foram, exatamente, pontos definidores para garantir o título da turma de Wlamir e Amaury, elas desenhavam o tabuleiro global que dividiram ideologias abissalmente opostas por quase todo o século XX: a assim chamada, Guerra Fria. E essa sim, diretamente responsável pelo não reconhecimento de Formosa.

Abrigo do êxodo de inimigos políticos de Mao Tse Tung da China revolucionária, certamente os países que compunham o bloco socialista não viam com bons olhos aquele pedaço de terra que se declarava independente. Esse foi o motivo que levou a URSS e a Bulgária a se recusarem a jogar contra a equipe daquele local. E foi exatamente este o motivo que deu ao Brasil o seu primeiro título mundial – caso contrário, os campeões seriam os soviéticos.

O título vinha de carona com as grandes glórias brasileiras em um dos tempos mais fascinantes da História do Brasil. Para além dos bimundiais do basquete e do futebol (ou ainda a dominação absurda de Maria Esther Bueno, líder do ranking mundial de 1959 a 1966, conquistando 71 títulos em toda carreira), aquele fim de década e começo de nova contemplava nas bandas de cá, além da já citada Bossa Nova, o avassalador Cinema Novo (Deus e Diabo na Terra do Sol, Vidas Secas e Os Fuzis foram filmados em 63) e os movimentos populares que tomaram conta do país até ser interrompido pelo golpe civil-militar de 1964.

O torneio

Durante 50 anos, o primeiro título mundial de basquete do país viveu apenas na memória daqueles que tiveram o privilégio de viver na época áurea do nosso esporte.

Com pouquíssimos registros, mesmo na inesgotável fonte de informações, a Internet, apenas agora aquela história voltou a ser resgatada, para deleite dos jovens amantes de basquete do Brasil.

A saga da equipe treinada por Togo Renan Soares, o Kanela, será contada em programas especiais dos dois maiores canais esportivos da TV fechada brasileira, programa obrigatório para os afortunados assinantes.

Como os campeões mundiais costumam declarar, o melhor momento do basquete teve a sua pedra-de-toque 11 anos antes do título de 1959, em Londres (Inglaterra). Ali, a equipe de basquete brasileira conquistou a medalha de bronze nos 14º Jogos Olímpicos.

A surpreendente campanha de 1948, de um elenco de apenas 10 jogadores, com 7 vitórias em 8 partidas, sucedeu uma participação apenas razoável nos primeiros Jogos Olímpicos disputados pelo basquete brasileiro, a 9ª colocação em Berlim/36.

Depois do bronze olímpico, a seleção brasileira ficou na 4ª colocação do Mundial de 1950 (Buenos Aires/Argentina), na 6ª colocação nos Jogos Olímpicos de 1952 (Helsinque/Finlândia), na 2ª colocação no Mundial de 1954 (Rio de Janeiro) e novamente na 6ª colocação nos Jogos Olímpicos de 1956 (Melbourne/Austrália).

Da seleção das Olimpíadas de 48, apenas Zenny de Azevedo, o Algodão, permaneceu até o Mundial de 1959. De qualquer forma, foi uma reformulação que ocorreu aos poucos, até que o elenco do primeiro título mundial do Brasil fosse formado da seguinte forma:

Amaury Antônio Pasos – Ala/pivô – 1,91 metros – 23 anos – São Paulo (SP)

Carmo de Souza “Rosa Branca” – Ala/pivô – 1,89 metros – 18 anos – Araraquara (SP)

Edson Bispo dos Santos – Pivô – 1,98 metros – 23 anos – Rio de Janeiro (RJ)

Fernando Pereira de Freitas “Fernando Brobró” – Armador – 1,80 metros – 24 anos – Niterói (RJ)

Jatyr Eduardo Schall – Ala – 1,87 metros – 20 anos – São Paulo (SP)

José Maciel Senra “Zezinho” – (não localizamos informações)

Otto Carlos Phol da Nóbrega – (não localizamos informações) – São Paulo (SP)

Pedro Vicente da Fonseca “Pecente” – Armador – 1,80 metros – 23 anos – São Vicente (SP)

Waldemar Blatskauskas – Ala – X – 20 anos – São Paulo (SP)

Waldyr Geraldo Boccardo – Ala/pivô – 1,94 metros – 22 anos – São Manoel (SP)

Wlamir Marques – Ala – 1,85 metros – 21 anos – São Vicente (SP)

Zenny de Azevedo “Algodão” – Ala – 1,85 metros – 33 anos – Rio de Janeiro (RJ)

Técnico: Togo Renan Soares “Kanela” – 52 anos – João Pessoa (PB)

Em janeiro de 1959, essa equipe desembarcou no Chile para disputar o 3º Campeonato Mundial da história.

As 12 equipes que participaram do torneio foram divididas em 3 grupos, da seguinte forma:

Grupo A

Grupo B

Grupo C

Argentina

Brasil

Bulgária

Egito

Canadá

Filipinas

Estados Unidos

México

Porto Rico

Formosa

União Soviética

Uruguai

As 7 seleções de melhores campanhas classificaram-se para a fase final, em que havia o confronto direto entre todas as equipes.

Mesmo com a derrota para a União Soviética, o Brasil terminou a primeira fase liderando o Grupo B, beneficiado pela vitória dos canadenses sobre os soviéticos. Confira os resultados do Brasil nesta fase:

Brasil 69 x 52 Canadá

Brasil 64 x 73 União Soviética

Brasil 78 x 50 México

Nesta fase, um acontecimento acabou mudando a história do Mundial/59: eis que a União Soviética e a Bulgária por questões políticas simplesmente recusaram-se a enfrentar Formosa, também denominada China Nacionalista – nome do partido em que militavam os inimigos de Mao que fugiram para aquela terra.

Além da derrota por W.O., os organizadores do torneio decidiram punir as duas seleções européias com a desclassificação da fase final do torneio.

Confira todos os resultados da fase final:

Chile

86

:

85

Formosa

Formosa

69

:

85

Estados Unidos

Bulgária

58

:

78

União Soviética

Formosa

81

:

85

Porto Rico

Chile

49

:

75

União Soviética

Brasil

99

:

71

Porto Rico

Estados Unidos

37

:

62

União Soviética

Bulgária

70

:

62

Porto Rico

Chile

55

:

64

Estados Unidos

Formosa

2

:

0

União Soviética

Brasil

81

:

67

Estados Unidos

Porto Rico

55

:

84

União Soviética

Bulgária

0

:

2

Formosa

Brasil

73

:

49

Chile

Bulgária

58

:

63

Estados Unidos

Brasil

94

:

76

Formosa

Chile

83

:

71

Porto Rico

Brasil

62

:

53

Bulgária

Estados Unidos

54

:

53

Porto Rico

Brasil

63

:

66

União Soviética

Bulgária

76

:

71

Chile

Com os soviéticos fora do caminho, a seleção brasileira garantiu o título com uma incontestável vitória sobre os anfitriões: 73 x 49. Assim, com uma campanha de 5 vitórias e apenas 1 derrota na fase final, o Brasil era campeão mundial de basquete, ficando à frente de Estados Unidos e Chile na classificação final.

Entrevista com Amaury Pasos, considerado o melhor jogador do Mundial/59

Draft Brasil: Um ano após a conquista da Copa do Mundo de 1958, era a vez do basquete brasileiro conquistar o seu primeiro título mundial. Naquela época, qual era a popularidade do basquete no Brasil?

Amaury Pasos: Naquela ocasião, o basquetebol já havia alcançado um certo grau de interesse por parte ainda reduzida de nossa população. Talvez, depois do futebol, até hoje insubstituível na preferência popular, era o segundo ou terceiro esporte, atrás do automobilismo e boxe.

Draft Brasil: Naquela época, houve o devido reconhecimento do público com o título ou o brasileiro já tinha os olhos voltados apenas para o futebol?

Amaury Pasos: Sem dúvida após a conquista do primeiro título mundial o basquetebol assumiu segundo lugar por muitos anos.

Draft Brasil: O senhor é considerado por muitos o jogador de basquete brasileiro mais completo de todos os tempos. Como o senhor definiria o seu jogo para os aqueles que não puderam vê-lo atuar?

Amaury Pasos: Ocorreu que, por força de circunstâncias, tive a oportunidade de jogar em todas as posições do jogo – hoje conhecidas como 1-2-3-4 e 5, mas naquela época divididas em três: pivot, lateral e armador -; ao ingressar na seleção em 1954 por ocasião do II Campeonato Mundial do Rio de Janeiro (fomos vice-campeões), devido à minha estatura elevada para a época (1,91m), ocupei a posição de pivot e posteriormente fui deslocado para lateral e finalmente para armador. Isto me outorgou amplo domínio das posições e deve ter feito de mim um jogador considerado completo.

Draft Brasil: Os soviéticos chegaram a lançar um selo comemorativo pela suposta “conquista moral” do Mundial de 1959. O que o senhor achou dessa atitude?

Amaury Pasos: De certa forma o foram, no entanto a moralidade não estava em disputa e deveriam ter deixado a política de lado e aterem-se à competição esportiva e seus regulamentos. Não obstante a diferença de pontos em nosso jogo com eles foi de apenas 3 pontos, o que significa que qualquer das equipes poderia ter vencido.

Draft Brasil: O senhor acredita que o título de 1963, conquistado de forma invicta, inclusive com uma retumbante vitória sobre a União Soviética (90 x 79) serviu para ratificar de uma vez por todas a legitimidade do título de 1959, calando aqueles que afirmavam que aquele só fora conquistado em virtude da desclassificação da URSS?

Amaury Pasos: Em 1963, no Mundial do Rio, dificilmente poderia ter sido formada uma equipe que pudesse derrotar o Brasil. Vínhamos de uma série de jogos internacionais e treinamentos que se iniciaram com o Campeonato Sulamericano do Peru e o Panamericano de São Paulo e a equipe “estava tinindo”. Observando as contagens, especialmente no jogo contra a Iugoslávia (quase vinte pontos de diferença) e União Soviética (11 pontos), pode-se imaginar como estava o nível de nosso basquetebol. Somente contra os Estados Unidos tivemos um placar um pouco apertado.

Draft Brasil: Há algum cabimento na idéia do presidente da CBB de fazer a homenagem aos campeões mundiais cerca de 7 meses após a data comemorativa e, ainda por cima, longe do país (no México)?

Amaury Pasos: Em mensagem separada estou enviando e-mail que enviei ao presidente da CBB no dia de janeiro p.p. Vale acrescentar que na data por ele proposta para realizar a homenagem é uma incógnita que será o presidente da CBB na ocasião, pois as eleições serão realizadas no próximo mês de março…

Draft Brasil: A imagem mais marcante da eliminação da seleção brasileira do último torneio pré-olímpico talvez tenha sido a de antigos heróis do basquete indo às lágrimas com as imagens. Como o senhor encara o nosso fracasso atual no basquete?

Amaury Pasos: Ocorre que os todos os campeões mundiais consideravam uma honra e privilégio representar nosso país e se dedicavam com todo seu ardor a fazê-lo. Jogavam solidariamente como uma equipe deve atuar, sem estrelismos e com dedicação total. Atitudes completamente diferentes que se observam nos dias de hoje quando jogadores se recusam a entrar na quadra para substituições determinadas pelo técnico e outros se preocupam em marcar a maior quantidade de pontos possíveis para efeito de agradar a mídia apesar de desequilibrar e prejudicar a equipe.

Enxertos da “entrevista coletiva” com Wlamir Marques

Em dezembro de 2008, o Draft Brasil teve o privilégio de contar com uma oportunidade única. Wlamir Marques, considerado por muitos o maior jogador de basquete brasileiro em todos os tempos e cestinha brasileiro no Mundial/59, concordou em responder as perguntas dos leitores do nosso site, dos mais variados temas ligados ao basquete, através de sua comunidade no Orkut. A “entrevista coletiva” com Wlamir Marques é um momento especial do Draft Brasil e que já dura quase dois meses. Das mais de 30 perguntas já respondidas pelo grande ídolo, separamos três diretamente relacionadas à história da seleção de 1959. Confiram:

Guilherme (Maringá/PR) Recentemente, na ESPN Brasil, o Zé Boquinha comparou o seu estilo de jogo com o Michael Jordan. Uma vez quando esteve com a ESPN Brasil em Maringá para um jogo na NLB, tive a oportunidade de falar com o senhor pessoalmente e fazer a mesma pergunta, e o senhor falou que era de certa maneira uma comparação difícil de fazer mas citou, por exemplo, Allen Iverson ou Kobe Bryant – por essa questão de controle corporal no ar.
Eu queria saber se com os métodos de treinamento (físico e tático) que hoje existem, o que você acha que evoluiria no seu jogo? E o que diminuiria? E se vale uma terceira pergunta, quais as principais mudanças no período de lapidação do jovem jogador que mais chamam a atenção da sua época de jogador para de hoje?

Caro Guilherme, naquela oportunidade em Maringá, eu cometi um grande equívoco na resposta que lhe dei. Disse que era difícil a comparação, hoje falo que é impossível a comparação. O Michael Jordan é e será incomparável por muitos e muitos anos e jamais serei eu alguém para ser comparado com ele, desejo que isso fique bem claro, embora seja lisonjeira a afirmação.

O que podemos “comparar” é o domínio do espaço aéreo que eu adquiri com muito treino e preparo. Fui um jovem com 1,85 metros que saltava muito e cravava a bola como gente grande. O grande problema na época era não termos o aro retrátil que dificultava muito mais a enterrada do que hoje. Antigamente você tinha que saltar muito mais, porque na maioria dos casos o aro retrátil vem junto e isso facilita a enterrada. Era normal na época quebrar a tabela de vidro na tentativa da cravada, tanto assim que ela era proibida nos aquecimentos para não haver prejuízo ao jogo.

Algumas coisas de hoje eu já executava na época. Por exemplo: Os 2 ou 3 tempos no ar, a mudança de direção com giros rápidos e muita velocidade nos contra ataques, escapar dos tocos com fintas independendo do tamanho do defensor, raramente eu tomava toco de quem quer que fosse, sempre encontrava no espaço aéreo uma alternativa de escape, enfim, acho que isso tornou o Wlamyr diferenciado dos demais jogadores da época. Você me pergunta as diferenças de treinamentos em relação a hoje. Naquela oportunidade o jogador era feito na quadra, hoje é feito na maioria das vezes nas academias. A necessidade da força está levando o basquete muito mais para uma luta do que para um jogo. Assusta você assistir um jogo próximo do mesmo, os contatos físicos são muito mais severos. Para nós jogarmos hoje, teríamos que modificar as nossas características físicas, mais músculos e muito mais força, com isso perderíamos muito das nossas qualidades motoras. Hoje falta qualidade técnica ao jovem, falta a lapidação que você muito bem aborda. Jogamos muito mais por imitação do que por orientação.

Célio (Santo André/SP) Assunto: Rosa Branca. Mestre como era o estilo dele? Jogou muito tempo com o Senhor? Pelo jeito o Rosa Branca nunca deixaria a seleção para jogar na nba se não podesse defender o seu país, não é mestre?

Caro Célio, perdoe-me, vou colocar aqui um texto que eu escrevi lá na minha comunidade “Wlamir Marques somos fãs”(http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?rl=cpn&cmm=61669869) – comunidade essa feita por um grande amigo do Rio de Janeiro o Chico e a sua esposa Dayse. Gostaria muito de tê-lo por lá, muita coisa já foi dita e escrita sobre basquete. Coloque ali sempre que você puder a sua opinião, ela com certeza será sempre muito importante. Antes eu afirmo que o Rosa assim como qualquer um de nós nunca fomos convidados para jogar na NBA porque nunca existiram convites. A NBA era fechada e somente os norteamericanos faziam parte daquele grande circo do basquete. Como se observa as coisas mudaram e nada impede hoje que o atleta participe da NBA e dos eventos da FIBA. Não posso dizer o que o Rosa sentiria se na época fosse convidado , como eu também não posso lhe dizer qual seria a reação de qualquer um de nós. Mas se nós transportamos para hoje, com certeza ele ou qualquer jogador já estaria na NBA sem pestanejar, seria a independência financeira de qualquer um. Essa coisa de pátria e de impedimento em jogar pela seleção brasileira dita por alguns é balela e jogo de marketing, ocorre é que nunca houve convites para serem aceitos ou não. A partir do momento que a NBA globalizou as suas atividades, muitos atletas do mundo passaram a fazer parte dos seus quadros e isso não representa qualidade mas acima de tudo, uma grande jogada de marketing da entidade, faturando em quase todos os países do mundo. Nada contra, apenas cito as diferenças .

Abaixo, o texto de Wlamir Marques sobre Rosa Branca:

WHITE ROSE (ROSA BRANCA)

Era para ter escrito ontem sobre o Rosa Branca, mas não me senti em condições de fazê-lo . A sua morte foi inesperada e isso me chocou muito. Ontem, depois de passar um grande tempo ao lado da sua família, hoje estou mais conformado e aceitando as coisas que a vida nos dá e nos tira. Vamos falar um pouco do Rosa Branca: Conheci inicialmente o White Rose em 1955 na cidade de Ribeirão Preto SP. Ele estava começando a jogar pelo São Carlos Clube, eu pelo XV de Piracicaba. Ele com 15 anos eu com 18, três anos de diferença nos separava, 3 anos justos pois fazíamos aniversário no mesmo dia , 16 de Julho , dia de Nossa Senhora do Carmo, daí a origem do seu nome, Carmo de Souza. Desde o primeiro momento ele agarrou-se muito a mim, ficamos muito amigos desde os primeiros minutos de convivência. Ali ele ainda não era o Rosa Branca, era o White Rose, apelido dado pelo professor Julio Mazzei, recém voltando dos EUA e achando o Carmo muito parecido com um atleta norte americano de basquete, deu-lhe essa marca registrada que mais tarde tornou-se Rosa Branca. A partir daí o seu talento começou a despontar no cenário nacional. Raramente veremos nas quadras brasileiras tanta beleza reunida em um só jogador. Esguio e elástico, era mais um dos nossos cangurus do basquete, todos nós saltávamos muito para a época, éramos diferenciados ., deixávamos o jogo muito mais bonito e o Rosa era uma peça que se encaixava de forma soberba naquele circo com números inéditos , apenas seus e jamais imitados. Posso dizer que o Rose foi um grande artista da bola grande e do aro pequeno. Nunca senti nele qualquer dificuldade em fazer o que fazia, tudo era espontâneo e natural, jogava sem fazer força e isso só os grandes talentos são capazes de fazer. A sua história está aí para ser contada, mas a nossa história pessoal está muito mais gravada em nossos corações do que nas quadras. Com certeza no céu os anjos se encantarão, chega um grande espetáculo. DEUS estará presente, lhe abençoando”. Wlamir Marques

Célio (Santo André/SP): Mestre está muito interessante a sequência de histórias do mundial de 1959 na globo.com, hoje eu li sobre o senhor e o Amauri, numa discussão de quem teria sido o melhor jogador brasileiro e sul-americano. O senhor pode falar um pouco sobre o Amauri como pessoa e estilo de jogo? Obrigado.

Caro Célio, para mim é muito fácil falar sobre o Amaury até porque tenho conversado com ele quase todos os dias e isso já vem de muitos anos atrás. O Amaury começou jogando basquete no C.R.Tiête da capital paulista. Morou na Argentina durante um certo tempo, pois o seu pai era argentino, muito famoso na época como cabeleireiro, Antoine era o seu nome. O Amaury sempre foi um jogador muito elástico e muito esguio, começou jogando na posição de pivô embora não tenha sido um jogador muito alto, mas para a época era o suficiente até pelas suas qualidades técnicas e físicas. Aparecemos na seleção brasileira praticamente juntos, eu estive em uma seleção antes dele, eu possuía 16 anos quando fui convocado pela primeira vez. No ano de 1954 seria realizado no Brasil o 2º Campeonato Mundial de Basquete e na convocação o Amaury não constava da lista, até porque o técnico Kanela não o conhecia. Ele foi indicado por um técnico de São Paulo, falando para o Kanela de um garoto em condições de treinar naquela seleção. O Amaury apareceu para os treinamentos e já no primeiro treino o Kanela disse: A equipe titular do Brasil para esse mundial será a seguinte: Algodão, Angelim, Mair, Amaury e Wlamir. Eu tinha 17 anos e o Amaury 18. Isso foi dito 4 meses antes da realização do campeonato e dito e feito, essa foi a sua equipe titular . Amaury era o pivô desse time, em 59 foi lateral e, mais tarde em 1963, na ocasião do bicampeonato ele foi o armador. Portanto veja que ele passou por todas as posições do basquete, assim como eu, não havia dificuldades em jogarmos onde estivéssemos na quadra. O Amaury possuía qualidades físicas natas essenciais ao basquete, esguio, magro e elástico e, ao mesmo tempo ágil e inteligente. Pontuava sempre muito bem e foi um jogador sempre muito solidário com as equipes que defendeu. Muito disciplinado e altamente responsável. Para mim, ele foi o melhor jogador brasileiro que eu vi jogar e, se você perguntar isso para ele, vai dizer que fui eu. É um trato antigo entre nós.

Especial produzido por: Guilherme Tadeu de Paula e Alfredo Lauria
Colaboraram: Matheus Abud e Rafael Menta Guedes