Globo no basquete: a instituição imaginária da sociedade

Globo no basquete: a instituição imaginária da sociedade

O basqueteiro desavisado que, com pouco tempo para o almoço, se atualiza assistindo o mais importante programa esportivo da televisão brasileira certamente se surpreendeu quando nos últimos dias, o Globo Esporte apresentou uma série de reportagens que “ensinam” os fundamentos do jogo. O roubo de bola com Duda é o meu preferido. Alfredo Lauria me garantiu gostar mais do Shilton ensinando a rebotear.

Aquele um pouco mais avisado vai se lembrar da criação da liga que pretende refundar o basquete nacional e da plataforma fundamental que garantiria o sucesso da empreitada: “temos a Globo de parceira”. Na fala retirada do Bala na Cesta do chefão da Globo no setor de esportes, Luiz Fernando Lima, um indicador do que consistiria tal associação:”Temos a obrigação de informar o público sobre a modalidade e ver o que vai acontecer daqui pra frente. Inicialmente vamos apenas nos aplicar na cobertura, pois acreditamos no crescimento do interesse na modalidade. Vamos seguir o exemplo do vôlei, que cobrimos há mais de 25 anos e hoje é um sucesso. Queremos criar um impacto. O contrato prevê a possibilidade de transmissões, mas é difícil que isso aconteça em TV aberta nesse momento. É um investimento na exposição mesmo que seja apenas em reportagens”.

Se os valores ainda sejam desconhecidos (inclusive por parte dos dirigentes interessados), algumas das pautas do acordo são notórios. A começar, pelas aparentemente inofensivas e bastante “expositivas” aulas de fundamentos, mote do texto que aqui segue. A transmissão das partidas, como avisava Lima, só em tv fechada, às quartas e sextas.

Medida aparentemente simpática aos fãs da bola laranja, a prática expõe o padrão-globo-de-jornalismo: a criação do que é noticiário. Sem querer cair em um clichê tão básico da crítica pela avidez ao lucro (crítica clichê, mas extremamente necessária, diga-se) que os bacharéis do mercado vão insistir em ironizar, me parece mais um dos casos em que a emissora pratica o comércio dos fatos. Estivesse realmente interessada no basquete, a emissora carioca dedicaria mais que os patéticos um minuto e trinta e cinco segundos ao segundo esporte mais popular do mundo. Okay, no país do futebol, pedir mais que isso é gritar mudo. Pois insisto que, houvesse algum interesse no nosso esporte, o Globo Esporte não poderia ignorar o Paulista de Basquete, maior competição do basquete nacional dos últimos tempos e às vésperas de sua decisão, para mostrar Duda roubando bolas do irmão Marcelinho num esforço visivelmente tosco de massificação através da criação de ídolos. O tal “compromisso com a cobertura” só nasce agora? E os últimos anos de absoluto descaso com o que acontecia no esporte? É ou não uma confissão explícita do Manual do Jornalismo Global?

Na vida pessoal ou na política, na comédia e na tragédia, há um apelo fantástico quando as estruturas podres buscam um ressurgimento com o mito da refundação. Só o basquete brasileiro, por exemplo, foi “refundado” algumas vezes nos últimos anos (de cabeça: a NLB, a Supercopa, a chegada de Moncho e agora a NBB). Mas o único trunfo que tem nas mangas a liga do “poderoso” Kouros é ter a Globo de parceira e a tal “visibilidade” que esta pode trazer.

Tenho de ser justo: o acordo com a Globo, por mais desconhecido que possa ser, não pode ser pior que os outros que a liga tinha na mesa para decidir. Em matéria de Jorge Corrêa para a UOL, há a informação de que “A ESPN Brasil, conjuntamente com a BandSports, fez uma proposta de transmissão de um grande número de jogos, mas sem o pagamento de direitos, ideia que não foi aceita. “Nós sempre nos levantamos para apoiar o basquete. Transmitimos a Nossa Liga e a Supercopa [torneios paralelos ao Nacional da CBB], e nunca tivemos lucro com isso”, disse Carlos Maluf, gerente de aquisições do canal por assinatura”.

O que há de errado então em aceitar a proposta da Globo? Essa resposta só pode ser completa quando for divulgado o contrato estabelecido com a emissora. Mas parcialmente, olhando o cenário disponível, só se pintou duas opções: virar refém global ou premiar a fidelidade da ESPN sem cobrar direitos de transmissão. Nenhuma das duas me parece minimamente aceitável. Os homens do nosso basquete escolheram a primeira.

E explico o motivo pelo qual deixar nas mãos da Globo o nosso basquete não é uma opção viável.

Alguém realmente acredita que foi a parceria com a Globo que fez o vôlei poderoso? O investimento pesado na base, a capacitação formidável dos treinadores, a criação dos centros de excelência, somado ao nível exterior bem longe do competitivo em esportes como tênis, natação, basquete e judô, por exemplo, não seriam indicadores mais próximos da razão pelo alcance de potência? Não? Experimente então dizer o nome de cinco equipes que jogam a Superliga.

Para além disso: a Superliga de vôlei não pode servir de paradigma. Por um motivo em especial: ela se criou por campeões olímpicos. A nossa nasce sequer com atletas que consigam ser olímpicos. A Superliga não é gestora do vôlei que conduziu às gloriosas conquistas, é produto. Quando começou, em 94/95, já vinha amparada com o peso de campeões olímpicos. O sucesso veio antes nas quadras, jogando em alto nível e contra os melhores do mundo.

A tal parceria com o mais rico canal do país só seria a salvação de nosso basquete se o problema fosse de exposição. Ainda que fosse, 1:35 por dia talvez equipararia o apelo da bola laranja ao do glorioso Beach Soccer ou os interessantíssimos duelos do vôlei-de-praia. Falando nisso, alguém consegue lembrar cinco duplas deste tão célebre esporte que é “parceiro” global?

A Globo não tem nenhum “compromisso” com o basquete. Ela é uma emissora privada que, como entidades deste tipo, só pode visar o lucro. Os clubes, falidos, aceitaram qualquer migalha, porque com a tal “visibilidade” fica mais fácil acertar com um patrocionador de 20 mil por mês e trazer um americano para dominar o garrafão.

A nossa crise é técnica e, enquanto não se entender que passa por problemas estruturais do modo de ver, pensar, gerir e jogar basquete, as tentativas seguirão vãs. O que me parece, objetivamente, é uma inversão de sujeito e predicado: não é a notícia quem deve criar o basquete, mas sim o basquete criar a notícia. Se não, o mito da refundação nasce com a sempre estranha síndrome do Estocolmo: um refém dependente, com duas transmissões semanais, um site comandado pela competente trupe do Globo Esporte.com (quem acessava o endereço da liga nos últimos dias era redirecionado ao site de “Basquete” do Portal -> www.novobasquetebrasil.com.br) e 1:35 de espaço diário instituindo ídolos de barro.

Guilherme Tadeu de Paula

Editor do Draft Brasil


Gostou? Então compartilhe o post!

  • Twitter
  • Facebook
  • Google Buzz
  • Orkut
  • del.icio.us
  • Blogger
  • Digg
  • email
  • Google Reader
  • LinkedIn
  • Live
  • MySpace
  • StumbleUpon
  • Tumblr

23 Respostas para “Globo no basquete: a instituição imaginária da sociedade”

  1. Perfeito Guilherme.

    A Globo adota o sistema de “o jornal faz a notícia” e não “a notícia faz o jornal”.

    E você falou tudo quando afirmou que o basquete (como qq outra modalidade) é refém da Globo. Ou se paga (através de direitos de transmissão a preços módicos), ou simplesmente não é notícia.

    É muito mais por esse motivo e não por um suposto desisnteresse do torcedor que o basquete desapareceram dos jornais.

  2. Bela reportagem. De fato, não é nada irrelavante olhar para a busca pelo lucro de instituições como as organizações Globo. Desconsiderar isso conduz a uma visão equivocada das intenções que são colocadas em jogo nas relações com a LNB. O efeito da atual conjuntura do basquete brasileiro foi uma bola de neve que começou com o fraco nível dos campeonatos nacionais (desde a década de 90 ou até antes mesmo), passando pela não renovação dos atletas, técnicos, padrões e esquemas táticos, falta de organização dos clubes, jogadores, técnicos e dirigentes em associações/sindicatos, culminando com a não classificação às Olimpíadas desde 1996. A falta de exposição do esporte na grande mídia acompanhou esse declínio. Dar a mão agora para “ajudar” a reerguer o esporte sem reconhecer a falta de apoio (não apenas financeiro) é criminoso. E se a LNB estiver, como penso que está, apostando suas fichas para reverter o quadro do basquete nacional no apoio da Globo e cia, será uma Liga com prazo de validade. Por essas e outras que ainda não vejo razões pra ficar minimamente otimista com o NBB. Basta confrontar o entusiasmo de muitos com o “alto nível” das semi-finais e finais do campeonato paulista e pela classificação do Minas e do Brasilia para o Final Four da Liga das Américas com o precário nível e condições do basquete praticado por aqui. O BRASILIA SUOU PRA VENCER UM TIME CHILENO!!!! Nada mudará enquanto ficarmos satisfeitos com tão pouco.

  3. Na mosca Guilherme.Excelente análise do “momento” LNB.Sem dúvida alguma o grande problema do basquete brasileiro é técnico, com todas as suas implicações.Um abraço, Paulo Murilo.

  4. Meu caro Guilherme:
    Esse texto, como quase todos os seus, é excelente. Há um pouco de implicância com os irmãos Machado, mas no cômputo geral – e principalmente na análise da inversão de sujeito e predicado – seu texto torna evidente a maneira com que a Globo trata determinados esportes.

    Já que falei da sua implicância, vou tentar ser justo e ser um pouco implicante também. Assim você pode dizer o mesmo de mim. Quando usa o volei como exemplo, você lembra muito bem do ano da criação da Superliga, e de sua fundação nos campeões olímpicos de 92. Por mais que não seja este o assunto do seu texto, eu, o implicante, jamais deixaria de relacionar o crescimento do volei com o reinado do Nuzman no COB. O homem conseguiu até transformar o volei de praia em esporte olímpico! É muito poder…não acho que o crescimento de tal modalidade deva-se apenas a isso, mas que teve grande importância, ah meu amigo, teve.

    Só pra finalizar dando uma de carioca bonzinho, discordo de você em outro pequeno ponto: o Paulista de Basquete não é a principal competição do esporte dos últimos tempos, é a principal competição do esporte no Brasil desde sempre hahaha.

  5. fala Leonardo, tudo bem?

    Eu agradeço o comentário, e queria me aprofundar um pouco na sua resposta.

    Eu realmente acho que a NBB surge como uma liga independente da CBB e isso já seria de comemorar (certamente com várias limitações que com mais tempo dá pra abordar).

    Mas acho que o ponto fundamental é que a liga ser feita por clubes-que-não-mudaram-a-mentalidade-de-administrar-o-basquete não quer dizer muita coisa. Qual a primeira solução que eles encontraram? Entregar a “promoção” do campeonato à Globo. Com a exceção de raros casos (me vem a mente só Joinville, Franca e Limeira), é bom dizer.

    Dito isso, acho que a Liga das Américas não pode servir de parâmetro nem para o bem e nem para o mal. É verdade que BRB suou pra vencer o horrível time chileno. Mas também é verdade que na mesma competição, ganhou dos campeões argentinos. O basquete brasileiro hoje é muito superior ao chileno e muito inferior (em organização tática/técnica) que o da Argentina. Mas, por incrível que pareça, nenhum dos times argentinos chega ao Final Four da Liga das Américas.

    O que me preocupa realmenmte é que não se vê nenhum indicativo no sentido de minar a profunda crise técnica que assola nosso esporte (acho que você foi muito bem ao pontuar os momentos que iniciaram essa impressionante bola de neve).

  6. Guilherme, concordo contigo quando disse que devíamos comemorar pela LNB surgir como independente da CBB. Por um lado, isso é bom. Por outro, só evidencia o tanto de problemas que as últimas gestões da CBB geraram a ponto de chegarmos a comemorar algo assim. E, como você bem disse, enquanto a forma de pensar o basquete não mudar, essa “mudança” não mudará grandes coisas. O que Joinville, Franca e Limeira têm de exceção? Não sei se entendi. Quanto à Liga das Américas, penso que a vitória sobre o Libertad foi tanto por méritos do Brasilia quanto por uma péssima atuação do time argentino também, que não defendeu absolutamente nada (e aí não tem a ver com grandes tramas ofensivas do esquema do Lula) e errou demais no ataque, inclusive perdendo cestas incríveis. Não quero desmerecer a vitória do Brasilia, mas relatizar o resultado. Quanto aos outros times argentinos, o Quimsa é o penúltimo colocado (15º) na Liga A. O Regatas, apesar de uma equipe até razoável no papel, também atravessa um momento difícil (13º na tabela) e mesmo assim teria se classificado caso não tivesse perdido do time chileno e não fosse tão inconstante contra os uruguaios. O mesmo vale pro Penãrol, esse sim, que atravessa bom momento na Liga Argentina (em 4º lugar). No geral, apesar da Liga Argentina ser mais notadamente a mais forte, ainda existe um certo equilíbrio entre os clubes sulamericanos. Já o mesmo não ocorre entre as seleções. Esse é um ponto interessante pra se debater.
    Sobre a crise “técnica”, é importante que se diga que ela é, em essência, uma crise política. E com todas as implicações que a palavra indica: de poder centralizado, administrativa, manutenção do status quo (tanto no nível da cúpula que se mantém no poder quanto dos treinadores e jogadores que não querem alterar sua visão do esporte/jogo), de organização, de ausência de recursos públicos e consequente busca da iniciativa privada (o que sempre traz diversos problemas e limitações, como você bem apontou). Não podemos perder essa dimensão de crise política, pois se nos limitarmos a ver como crise “técnica”, vamos pensar que as soluções são de ordem técnica stricto sensu.

  7. Guilherme,

    Achei sensacional o texto.

    Parabéns!

    Abraço.

  8. Guilherme, belíssimo texto.
    Como você disse no texto, o problema do basquete não é só de exibição, é um conjunto de problemas, que demorará alguns anos para serem resolvidos, como a verba destinada aos clubes, clubes não falirem, e por ai vai.

  9. Meus parabéns, pelo texto. Aguentar as transmissoes, e materias da globo é terrivel, basta ver este início q já colacaram o marcelinho para aparecer faz muio tempo q eles tentam transformar este cara em ídolo. O pior de tudo é q o grupo globo terá o monopolio, exclusividade isto faz muito mal a qualquer esporte brasileiro.

  10. Estava me lembrando, a muuuuuuito tempo atrás a Bandeirantes passava jogos do basquete universitário a tarde.
    Bons tempos

  11. Bom, o texto é bem esclarecedor.

    A Globo poderia muito bem transmitir os jogos no sábado à tarde.
    Mas vejo que ruim com a Globo, pior sem ela.

    Tudo isso é fruto da bagunça administrativa da CBB, do Grego, agora só estamos colhendo o que plantamos.
    Esse é o momento de começar por baixo, e fortalecer a LNB, ai sim podermos exigir mudanças de tratamento.

    E puxando sardinha pro meu lado, num fica de implicância com o Marcelinho não. rs.

  12. Para os mais velhos: Até 1987, a TV Cultura (SP) transmitia as finais do campeonato paulista juvenil. Naquela época era realizado um hexagonal entre os três primeiros da capital(ainda existiam Sírio, Monte Líbano,Corinthians…) e os três primeiros do interior.
    Bons Tempos.

  13. Guilherme, eu aguardo anciosamente o video “Decidindo entre arremessar ou passar” com Marcelinho Machado. E você?

  14. Perfeita sua análise. Todos sabemos que modalidades não transmitidas pela TV Globo ou pelo SporTV não têm espaço. Por exemplo, no futebol, as ligas européias que são exclusividade da ESPN. A Globo não fala nada sobre isso. O problema é que para a emissora, só é notícia o que ela transmite. Por acaso ela fala de F-Indy?
    As equipes de basquete, na ânsia de melhorarem aceitaram qualquer acordo. O que elas devem ter em mente é que quando não for mais interessante para a emissora falar de basquete, a modalidade será descartada.
    Jonas Barreto.

  15. Excelente artigo. (nada mais precisa ser dito)

  16. Valeu Guilherme!
    O basquete agradece a sua dedicação na escolha das palavras.
    Nós precisamos muito mais do que um simples “vamos massificar”.
    Abraço

  17. Desculpe pela demora na resposta. Vou tentar responder todos com o respeito merecido…

    Menos o Alfredo que já é prata da casa rs

  18. Obrigado pelo comentário, prof. Paulo.

    O sr. tem alguma novidade em relação à Escola de Treinadores? Certamente seria um dos primeiros passos pra poder sair do encalhe…

  19. Fala Beto

    Eu não tenho a menor dúvida que a gestão Nuzman no COB é, no mínimo, suspeita e deve sim entrar na lista dos motivos de que explicam o avanço do vôlei.

  20. Prezado Guilherme,creio que no artigo que publiquei hoje respondo em parte a sua pergunta sobre a Escola de Técnicos.É um assunto de importância capital para o futuro do grande jogo entre nos, e só peço aos deuses que a mesma não caia nas mãos dessa turma que ai está empurrando o basquete ladeira abaixo.Um abraço, Paulo.

  21. [...] Eis que a Globo ataca novamente. Avisávamos, antes de tudo, mas parecem que só dizem nos ler pra tentar estabeler uma política de boa vizinhança. O debate que deve ser debatido ninguém que ocupa as fileiras que decidem as coisas da LNB toma a frente. [...]

  22. Realmente a imprensa em geral é o 4º PODER! Assistam o filme 4º Porder e verão, é a mais pura realidade!

  23. Cinco times da Superliga: Unilever/Rio de Janeiro, Sollys/Osasco, Usiminas/Minas, Pinheiros/Mackenzie, Blausiegel/São Caetano.

    Colocar em dúvida, aqui me refiro a um comentário, no Nuzman a frente da CBV?! Que ridículo! O Nuzman é um dos responsáveis pelo sucesso do vôlei com medidas, organização, empenho. Colocar sua gestão em dúvida é ir de encontro ao esporte que dá certo.

    Por fim, bela matéria. Espero que o basquete tenha salvação. Para quem não lembra, o basquete era grande muoto antes do vôlei, da natação, do judô… uma pena que se perdeu. E a Globo, ah a Globo é o maior mau no esporte nacional. É futebol e nada mais.

Deixe um Comentário

Você pode usar as seguintes tags XHTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>